Farejando Desgraças: Premonições - Obscura Verdade

Apenas os Pequenos Segredos Precisam ser Guardados, Os Grandes Niguém Acredita - Herbert Marshall

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25 de ago. de 2014

Farejando Desgraças: Premonições


Premonições?

No dia 5 de setembro de 2001, o médium irlandês Zak Martin descreveu uma visão assustadora: “Na última semana, tive uma premonição muito nítida de um avião – parecido com uma aeronave comercial de passageiros – colidindo num arranha-céu e explodindo em chamas. Acho que é nos Estados Unidos – possivelmente Chicago”. O relato de Martin foi enviado para o Registro de Premonições Psíquicas, uma entidade de parapsicologia do Reino Unido. Seis dias depois, não apenas um, mas dois aviões comerciais foram jogados contra as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York. Como se sabe, ambos explodiram e cobriram de fogo e fumaça os prédios mais altos daquele país, que acabaram ruindo e virando uma pilha de vidro, concreto e aço. Coincidência? Previsão do futuro? Levando-se em conta que Martin, aparentemente, nada tinha a ver com a Al Qaeda, o grupo terrorista acusado de promover o atentado, e contou o sonho quase uma semana antes da tragédia, a história rapidamente se transformou num badalado caso de precognição. Fenômeno mais freqüente da paranormalidade, precognição é o nome que os parapsicólogos dão para a premonição, o conhecimento prévio do futuro sem dados do presente que permitam a dedução do que vai acontecer. Todos os dias, dezenas de pessoas relatam fatos desse tipo. Muitos caem no esquecimento, sem nunca serem confirmados. Outros se materializam, com uma espantosa perfeição de detalhes, e enchem páginas de jornais, revistas, livros e sites de parapsicologia. Quanto mais universal a história, mais fácil de ganhar fama.

É o que aconteceu com o pintor americano Charles Burwell. Em setembro de 2000, ele terminou de pintar um quadro em estilo surrealista de 60 por 84 centímetros. A obra tinha tudo para permanecer anônima fora da turma das artes plásticas, não fosse um bizarro detalhe: em vez de relógios derretidos como os de Salvador Dalí, Burwell desenhou a imagem de um prédio coberto pelo que parece ser uma nuvem de fumaça em forma de sorvete de casquinha, destacando-se no horizonte de uma metrópole. Exatamente um ano depois, o próprio pintor se surpreendeu com a semelhança entre a tela e as fotografias das torres gêmeas queimando, publicadas no mundo todo. “O simbolismo de minha pintura lembrou-me quase imediatamente o 11 de setembro”, escreveu o artista em seu site pessoal. “Mesmo depois dessa formidável coincidência, não estou certo se tenho ou não habilidades precognitivas.”

Independentemente da explicação, a tela foi batizada de Omen, ou “presságio”, em português. Afinal, Burwell pode ter tido uma precognição? Qualquer pessoa pode pressentir o futuro diante de seus olhos? “As faculdades parapsicológicas, todos têm, mas ninguém as domina”, afirma o padre Oscar Gonzalez-Quevedo, um dos mais polêmicos parapsicólogos do Brasil. Assim, num momento de desequilíbrio, febre alta, dor de cabeça ou sonho, você poderia ver detalhadamente alguma coisa que ainda vai acontecer. Como envolve fortíssimas doses de emoção, as precognições normalmente estão relacionadas a acidentes, desastres e más notícias em geral.

Salvos por um sonho


O desastre do RMS Titanic

Não é por acaso que o naufrágio do Titanic, uma das mais célebres tragédias do século 20, seja acompanhado de diversas histórias de pessoas que pressentiram a viagem sem volta do transatlântico. O empresário inglês J. Connon Middleton havia reservado passagens para ele e a família. Dez dias antes do embarque, ele sonhou com um navio de quilha para o ar, rodeado por passageiros e bagagem boiando. Para não assustar os parentes, ficou quieto. Mas o sonho se repetiu na noite seguinte. Middleton resolveu adiar a passagem, pois a viagem não era urgente, e contou tudo para três amigos. Na fatídica noite de 14 de abril de 1912, o Titanic bateu num iceberg e afundou no Atlântico Norte, matando 1500 pessoas, entre passageiros e tripulantes. Middleton relatou o caso para a Sociedade de Parapsicologia de Londres, acompanhado dos passaportes, das reservas e de uma carta com o testemunho assinado dos amigos. Dias depois, novos registros foram aparecendo. O marinheiro Colin MacDonald, por exemplo, recusou a função de subchefe de máquinas do Titanic por causa de um presságio de desastre.

Em alguns casos, foi pura superstição, como os milionários J. P. Morgan e George W. Vanderbilt, que admitiram ter cancelado as passagens por medo de estar na viagem inaugural de um navio. Em outros, faltavam detalhes que pudessem relacionar os sonhos e as precognições ao acidente do Titanic. Se o problema são os detalhes, a história do escritor inglês Morgan Robertson é de arrepiar. Em 1898, ele publicou um romance sobre o naufrágio de um grande navio, que ocorria num mês de abril, após chocar-se com um iceberg no norte do Atlântico. Metade dos passageiros morria por falta de botes salva-vidas, tal qual ocorreria com o Titanic. Mera coincidência ou terrível premonição, o livro chamava-se Futility or the Wreck of the Titan (“Futilidade ou o Naufrágio de Titan”, sem versão para o português). Robertson não viajou no Titanic, logo, não virou personagem da própria ficção.

Já o jornalista inglês W. T. Stead não teve a mesma sorte. Até 1912, ele tinha publicado várias histórias, entre as quais o conto “O Fantasma Branco do Desastre”, a respeito de navios que afundavam no oceano e os passageiros morriam à deriva. Stead se interessava pelo sobrenatural e visitou alguns médiuns, em busca de novas idéias fantásticas para os seus textos. Nesses contatos, três deles teriam avisado sobre o acidente do Titanic, com premonições como “será perigoso viajar no mês de abril de 1912” ou “você estará no meio de uma catástrofe na água”. Mesmo assim, Stead embarcou naquela primeira e última travessia do Titanic. E, como costumava narrar em seus livros, foi um dos que morreram no mar porque não havia botes suficientes para todos. Embora fossem escritores de ficção, Robertson e Stead teriam visto o futuro? Ou foram vítimas casuais da própria imaginação literária?

Os céticos citam um dado comum a esses acontecimentos: todos se referem a preocupações de suas épocas. No começo do século 20, quando os navios dominavam o transporte de pessoas de um continente para outro, preocupar-se com naufrágios era tão comum quanto temer um atentado aéreo nos dias de hoje, quando os turistas preferem o avião. A pergunta racional seria: por que ouvimos poucas premonições de tragédias marítimas no século 21 em comparação às visões de Boeings explodindo no ar? Nesse caso, Robertson e Stead teriam apenas denunciado um fato daqueles anos: as empresas marítimas descuidavam da segurança. Em 1998, a inteligência americana alertou a Casa Branca para a possibilidade de ataques terroristas, com o uso de aviões, dentro dos Estados Unidos. O relatório estava certo, como comprovou o atentado de 11 de setembro, e não foi feito por uma equipe de precognitivos. No site Dicionário do Cético (brazil.skepdic.com), o americano Robert Todd Carroll cita a lei dos números muito grandes. Essa lei diz que, numa amostra suficientemente grande, muitas coisas estranhas demais para parecerem coincidências são prováveis e nada estranhas. “Digamos que a possibilidade de uma pessoa sonhar com a queda de um avião, e um cair no dia seguinte, seja de 1 para 1 milhão. Com 6 bilhões de pessoas tendo em média 250 temas de sonho por noite, devem existir 1,5 milhão de pessoas por dia tendo sonhos que parecem clarividência”, escreve Carroll. A análise cética utiliza também a regra do efeito Forer – quanto mais vagos forem o sonho, a premonição ou a predição, mais exatos eles parecerão.

Na parapsicologia, a precognição só é reconhecida se a pessoa não tiver informações no presente que permitam a dedução do futuro. Em 1915, Edward Bowen, um bem-sucedido vendedor de calçados de Boston, nos Estados Unidos, estava com bilhete comprado para embarcar no luxuoso transatlântico britânico Lusitania. Na véspera da viagem, ele sentiu uma súbita preocupação e resolveu ficar. “Um sentimento cresceu dentro de mim de que algo ia acontecer ao Lusitania. Conversei seriamente com minha esposa, e decidimos cancelar nossa passagem, apesar de eu ter um negócio importante marcado em Londres”, contou a amigos, na ocasião. Um dia antes da partida, os tripulantes do Lusitania interpretaram como mau agouro a fuga do mascote do navio, um pequeno gato preto. Em 7 de maio de 1915, um torpedo alemão afundou o Lusitania. Naquele ano, Grã-Bretanha e Alemanha combatiam em lados opostos na Primeira Guerra Mundial. Os jornais dos Estados Unidos publicavam anúncios da embaixada alemã alertando que os viajantes deveriam assumir os riscos de atravessar o Atlântico. O clima era hostil, mas ninguém imaginava ataques a navios de passageiros. A Marinha alemã pensou diferente, matando 1200 pessoas que estavam a bordo do Lusitania. Bowen teve uma premonição verdadeira ou estava influenciado pelas notícias vindas do front? O comerciante estaria impressionado com os perigos de viajar para a Europa durante a guerra ou pressentiu a tempo a tragédia? Para céticos ou não, a única certeza é que Bowen e a mulher sobreviveram.

Central de premonições

Apesar das centenas de precognições vagando pelo planeta, ninguém consegue evitar os desastres a tempo. Primeiro, porque é preciso acreditar que um sonho seja premonitório e não um pesadelo causado pelo jantar. Segundo, porque é impossível determinar se a visão de um acidente vai se tornar realidade. Em 1967, o psiquiatra J. C. Barker criou o Escritório Britânico de Premonições, na Inglaterra, com a proposta de centralizar as experiências precognitivas. Qualquer um que tivesse sonhado ou pressentido um evento podia telefonar para o escritório e relatá-lo. A idéia de Barker era simples: se um número considerável de pessoas descrevesse situações parecidas, ele poderia construir um sistema de alerta e prevenção de desastres. Em seis anos, foram recebidas 1 206 ligações. Poucas pareciam conter premonições verdadeiras de assuntos de interesse público, além de serem feitas normalmente pelas mesmas pessoas. Barker não conseguiu estabelecer um padrão claro de repetições ou uma quantidade considerável de registros de um único evento. Ainda que tenha obtido algum sucesso em antecipar determinados fatos, o escritório foi incapaz de evitar qualquer tragédia e fechou. Hoje existem trabalhos similares, como o da entidade para a qual Zak Martin comunicou a visão do 11 de setembro, que apenas registram as precognições. Entretanto, continua-se não conhecendo alguém que impediu uma catástrofe a tempo.

Está tudo escrito?

Algum dia será possível prevenir um acidente baseado num relato de precognição? “A precognição é o conhecimento direto do futuro”, afirma o padre Quevedo, do Centro Latino-Americano de Parapsicologia. “Se o fato for evitado, foi uma falsa precognição.” Por isso, segundo a parapsicologia, as tragédias previstas não poderiam ser evitadas. No filme Minority Report – A Nova Lei, de Steven Spielberg, baseado no livro do escritor americano de ficção científica Philip K. Dick, três jovens precognitivos visualizam os assassinatos antes de eles acontecerem. Com a informação em mãos, os policiais de Washington prendem os criminosos antes do crime. Seguindo o raciocínio dos parapsicólogos, como os crimes não ocorriam, os três precognitivos erravam todas as previsões. Se eles erravam, os acusados não se tornariam assassinos.

Claro que o livro e o filme Minority Report são obras de ficção, mas a explicação parapsicológica das precognições questiona a viabilidade de usar paranormais na investigação de crimes. Simplesmente porque as visões não escolhem hora para aparecer. “As precognições são fenômenos espontâneos e incontroláveis”, diz Quevedo. O padre ficou famoso como caçador de falsos paranormais e virou um dos maiores inimigos de videntes, adivinhos e futurólogos em geral que garantem dominar poderes extra-sensoriais de precognição, clarividência e telecinese, entre outros.


11 de setembro e suas premonições

Se pode fazer o cérebro humano acertar o futuro, a percepção extra-sensorial tem pelo menos uma limitação, conforme a parapsicologia. As precognições são sempre relacionadas ao nosso conhecimento do mundo e dentro de um prazo existencial de dois séculos, para frente ou para trás. Por isso, ninguém conseguiu acertar previsões sobre outros planetas já visitados por sondas terrestres ou decifrar um hieroglifo por meio da retrocognição – a capacidade de ver o passado. Com tantos estudos sobre o assunto, o que falta para a precognição ser reconhecida como um fenômeno verdadeiro? A resposta está na estatística, a grande divergência entre céticos e parapsicólogos. Ao seu modo, cada um interpreta os números de premonições que se materializaram. Voltemos ao caso de Zak Martin. No mesmo relato de 5 de setembro de 2001, no qual antecipou o avião batendo no arranha-céu, o médium irlandês descreveu outras duas visões: “Eu também prevejo duas mortes na família real, uma logo depois da outra” e “Tenho a impressão de uma tentativa de assassinato do líder palestino Yasser Arafat. Não tenho certeza, mas acho que envolve uma explosão”. Como se sabe, a rainha-mãe britânica Elizabeth morreu no dia 29 de março de 2002, menos de dois meses após a morte da filha, a princesa Margaret. Já Yasser Arafat morreu, internado num hospital militar na França, no dia 11 de novembro de 2004. Dois acertos em três previsões indicam coincidência, sorte ou precognição? Depende do lado em que você estiver.


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